Bassiló: 43 anos de história no coração de Armação de Pêra
06-OUT-2025Fundado em 1982, o Bar Bassiló tornou-se um verdadeiro ícone em Armação de Pêra, sendo hoje considerado o bar mais antigo da vila.À frente do projeto está José, mais conhecido em Armação de Pêra por “Zé de Angola”, figura incontornável da comunidade local, que ao longo de mais de quatro décadas conciliou a vida de empresário da noite com o futebol, primeiro como jogador e depois como treinador do Armacenenses.Tudo começou por ser uma casa de família. O seus pais e avó moravam na parte debaixo do edifício, mas houve uma altura que passaram para o piso de cima. Foi nesta altura que passou a responsabilidade para José, a irmã e o cunhado, onde tomaram a liberdade de transformar o espaço num bar.A escolha do nome “Bar Bassiló” tem raízes curiosas, ligadas a uma figura popular da terra, o pescador Paulo Vieira, conhecido pelas suas viagens às grutas e pelas sardinhadas em praias acessíveis apenas de barco. Durante esses momentos, animava os turistas com uma cantiga repetida vezes sem conta.«Era sempre a cantar. Ele cantava o Bar Bassiló, tchá, tchá, tchá, com duas garrafas e colheres de dente. E aquilo tornou-se tão típico que, quando abrimos o bar, o nome surgiu naturalmente.” – recorda José.Hoje, passados 43 anos, o Bar Bassiló mantém-se como uma referência. O espaço é também conhecido pela sua coleção de cachecóis, trazidos por clientes de todo o mundo.«Eu sempre fui desportista, joguei no Armacenenses e também fui treinador. No início comecei a pôr alguns cachecóis, e depois os turistas lembravam-se e traziam-me um da terra deles. E assim foi crescendo a coleção que hoje cobre o bar», recorda-se José.Na altura em que abriu o bar, havia mais uns quantos, tal como «o Bulldog, havia outro lá na Rua João II, o outro na transversal, o Underdog», mas passado cinco anos abriram muitos mais.O empresário descreve uma época em que a noite em Armação de Pêra era mais disciplinada e segura, em contraste com os dias de hoje.«Prefiro o antigamente, porque havia mais amizade, mais respeito. Hoje é tudo mais complicado. Antigamente, raramente havia problemas. Agora é diferente, as mentalidades mudaram, as tecnologias também mudaram as pessoas», contou José em entrevista à Junta de Freguesia.Na década de 1980 e 1990, a vila chegou a ter várias discotecas – Albatroz, Casino, Cottage – algo que desapareceu por completo.«Naquele tempo, os bares fechavam às duas da manhã e depois a alternativa era ir para a discoteca. Hoje está tudo misturado: pastelarias abertas até às quatro, bares até às quatro. Perdeu-se a diferença entre espaços», lamenta Zé de Angola.Os tempos eram outros.«Nós tínhamos a nossa maneira de nos divertirmos. Bebíamos os nossos copos, divertíamo-nos na parte da alegria, de nos juntarmos num bar, convívio. Hoje as coisas são diferentes. Portanto, os tempos são outros, as mentalidades também são outras, e a reação das pessoas também é», referiu.Com todas as diferenças ao longo dos anos, conclui que prefere o antigamente, pois havia mais disciplina, mais amizade, respeito, segurança e compreensão, em que raramente havia confusão.Apesar das mudanças e desafios, Zé de Angola sente orgulho no caminho percorrido.«Depois de 43 anos, claro que me sinto velho, mas também muito orgulhoso daquilo que construí. Sempre respeitei todos e fui respeitado. Este bar é parte da história da Armação», afirmou com um sorriso.O seu envolvimento no futebol local ajudou a consolidar essa ligação à comunidade: foi capitão, treinador e campeão distrital pelo Armacenenses nos anos 90, lado a lado com o então presidente Fernando Santiago, pessoa com quem tinha muita ligação.Se pudesse descrever o seu bar, Zé de Angola diria que é uma casa familiar. Foi sempre a imagem que passou no bar, apesar de haver muitos juntamentos, danças e músicos.«Pessoas que vêm para cá, ir para o seu clube, conversar, dançar, e sempre foi isso que, até ao dia de hoje, tem mantido sempre um bar mais familiar, não é de muitas confusões, muitos ajuntamentos», reflete José.Em relação ao futuro, pensa que quando já não puder mais, volta a ser uma casa como antes fora.«Começou comigo e acaba comigo», afirma firme,E o fim já se vai pensando.«Já penso(…) Infelizmente, a idade não perdoa e os problemas de saúde também vão sendo difíceis», concluiu.Mais do que um bar, o Bassiló é hoje e sempre foi um símbolo de memória coletiva da vila, ponto de encontro de gerações de locais e turistas, e testemunho vivo das transformações sociais, culturais e económicas da região.