Das memórias à escrita: assim nasceu os poemas de Álvaro Neves
11-MAI-2026
Aos 74 anos, Álvaro carrega consigo uma vida marcada por dificuldades, trabalho precoce, guerra e, mais tarde, um forte envolvimento na vida cultural de Armação de Pêra e na poesia.
Numa entrevista intimista à Junta de Freguesia de Armação de Pêra, recorda um percurso feito de superação, desde a infância no interior algarvio até à participação ativa na comunidade local.
Natural da barragem do Arade, no concelho de Silves, nasceu numa família humilde, filho de pais analfabetos. A infância foi marcada por dificuldades: depois de concluir a 4.ª classe, começou desde cedo a trabalhar, desempenhando tarefas agrícolas, cuidando de animais e até como pastor.
«A vida era muito dura», recorda, descrevendo um Algarve pobre e esquecido, onde a sobrevivência exigia sacrifício diário.
Aos 14 anos, partiu para Lisboa, onde iniciou uma nova etapa como aprendiz de serralheiro. Foi na capital que construiu família e vida profissional, até que, anos mais tarde, decidiu regressar ao Algarve, fixando-se em Armação de Pêra, terra que hoje considera sua.
Mas é também a memória da guerra que marca profundamente o seu testemunho. Durante o serviço militar, foi mobilizado para a Guiné-Bissau, em pleno período da guerra colonial. Recorda-se que no momento de partida, no porto de Alcântara, era muita emoção, pois havia muitas pessoas a acenarem e dizerem adeus aqueles que partiam. Para acompanhar Álvaro estava a sua namorada, a atual mãe do seu filho.
«Aquilo emocionou-me bastante. Ver alguns a chorar. Eu não chorei, mas tinha vontade», recorda-se Álvaro.
Já em Guiné-Bissau, tornou-se condutor de viaturas blindadas, viveu momentos de tensão, emboscadas e perda de camaradas.
«Foi um tempo de medo e aflição», recorda, descrevendo episódios de combate e o impacto emocional de ver colegas morrerem.
O 25 de Abril de 1974 apanhou-o ainda em território africano. A notícia chegou através dos superiores e trouxe consigo o fim da guerra e o regresso a casa meses depois, a 23 de Setembro de 1974. Álvaro lembra esse momento como uma viragem decisiva, que pôs fim a um dos períodos mais difíceis da sua vida.
Também antes da revolução, recorda o ambiente de repressão vivido durante o Estado Novo, com episódios de vigilância por parte da PIDE, que abordava cidadãos suspeitos de contestação ao regime.
Já em Armação de Pêra, encontrou uma nova forma de viver: através da participação comunitária. Envolveu-se no teatro 8 anos, nas marchas populares três anos, e no Carnaval 12 anos, atividades que marcaram mais de uma década da sua vida. Recorda-se, ainda, que a primeira vez que pisou praia e ver fogos de artifício foi em Armação de Pêra.
«Sempre fiz questão de participar», afirma, sublinhando o sentimento de pertença à terra que o acolheu.
Recorda-se, ainda, que a primeira vez que pisou praia e ver fogos de artifício foi em Armação de Pêra.
«Eu estava na Pedreira a guardar ovelhas com um velhote e havia um trabalhador que me convidava para vir aqui (Armação de Pêra) às festas. Virava-se para mim e diz-me “eu levo-te na bicicleta», recorda-se com alegria.
Apesar de algumas limitações de saúde o terem afastado recentemente de algumas atividades, mantém-se ligado à cultura local. Durante a pandemia, descobriu uma nova paixão: a escrita. Entre versos e poemas, encontrou uma forma de expressão e reflexão, tendo já sido distinguido nos “Desafios de Escrita”, do Polo de Educação ao Longo da Vida, promovidos pela Câmara Municipal de Silves, já conquistando o 2º e 3 lugares.
No início, mal feitos e acabados, hoje já aperfeiçoado a escrever quadros, versos e poemas, tudo é escrito através daquilo que imagina.
Para Álvaro, a escrita é mais do que um passatempo. É uma forma de expressão e libertação. «Sinto-me mais sossegado quando escrevo, parece que estou a libertar alguma coisa», afirma.
«Houve uma altura que eu levava um papel no bolso, e um lápis, e ia com o cachorro à rua, e às vezes surgia-me qualquer coisa, mas é mais para versos, e fazia-me frases para versos e escrevia, e deixei-me fazer isso. Eu hoje faço menos quadros, é mais poemas», acrescenta.
Inspirado no Fernando Pessoa e em Luís de Camões, continua a escrever por gosto.
Os seus poemas já são partilhados em espaços como a Rádio Lagoa, às terças-feiras, mas o grande objetivo continua por cumprir: publicar um livro.
«Tenho material para isso, só me falta ganhar coragem», confessa.
Apesar de considerar que a poesia ainda não é suficientemente valorizada, acredita no seu valor.
«Se fosse mais divulgada, as pessoas começavam a sentir mais a poesia», revela Álvaro.
Hoje, Álvaro assume-se como “armacenense de coração”, alguém que, apesar das origens na serra, construiu em Armação de Pêra o seu verdadeiro lar.
A sua história é um retrato vivo de um tempo difícil, mas também de resiliência, adaptação e envolvimento comunitário, um testemunho que atravessa gerações e preserva memórias que não devem ser esquecidas.